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Secretária
Geral da EUROTER
Suzanne Thibal
I - PROGRAMA GERAL DA PROCURA TURÍSTICA NO ESPAÇO
RURAL
1 - Abordagem
global - A procura turística no espaço rural:
a) insere-se
no âmbito da economia geral do turismo: (rememorar alguns
dados da OMT e da OIT)
- em 1996, o
turismo era o 3º sector exportador a nível mundial e
representava um volume de negócios cifrado em 610.000 milhões
de Euros;
- em 1995, o turismo empregava 200 milhões de pessoas, ou
seja perto de 11% da mão de obra mundial, e constituía
7% do investimento mundial em bens de equipamento;
- de 1960 a 1996, portanto em 30 anos, o número de turistas
multiplicou-se por 10 - passando de 60 milhões de entradas
para 592 milhões;
- 70% das actividades turísticas desenvolvem-se nos países
da OCDE;
- 60% dos fluxos turísticos - inclusive europeus - têm
por destino a Europa.
b) reflecte as grandes tendências sociológicas actuais:
- alterações
demográficas na Europa;
- crescimento do nível de vida mundial, sendo conveniente
realçar que as despesas turísticas aparecem em último
lugar na presente sociedade de consumo;
- ordenamento e redução do tempo de trabalho;
- crescente mobilidade;
- paradoxo social entre desejo de solidão e procura de solidariedade;
- perante o processo turístico, surgem quatro motivações
principais - vontade de descanso, desejo de sol, atracção
pela mudança, procura de convívio familiar ou entre
amigos... um rol de tendências que se reflectem sobre os fluxos
turísticos e os produtos turísticos do turismo rural.
2 - Uma abordagem específica: o processo turístico
no espaço rural diz respeito a um espaço, a homens
e produtos:
"...um
espaço sem homens não pode ser portador de convívio;
um espaço sem produtos não pode dar resposta ao conjunto
das expectativas dos consumidores turísticos;
...homens sem
espaço nem produtos apenas dispõem de uma capacidade
reduzida de acolhimento turístico;
...produtos
que não se alicerçam nem no espaço nem nos
homens só têm uma vida efémera "e não
podem gerar" desenvolvimento local..."
(Conselho da Europa - "Campanha europeia para o mundo rural"
- estudo nº 2 "O turismo rural na Europa, S. Thibal -
Estrasburgo - 1998)
a) espaço
rural
- desde sempre,
em todos os países, mau grado as crises socio-económicas
por que passaram as populações camponeses e os conflitos
de todo o tipo, o campo não deixou de simbolizar acolhimento
e hospitalidade em relação ao "forasteiro de
passagem";
- o turismo no campo passou a ser uma realidade turística
em toda a Europa rural, com as suas variantes consoante o país,
dado as características geofísicas, históricas,
sociológicas e culturais;
- contrastando com o reboliço da vida citadina, a procura
de "férias verdes" refere-se muitas vezes a valores
imateriais; traduz-se por uma procura de paisagens contrastadas,
ricas na sua diversidade, pelo contacto com a natureza, por percursos
em espaços abertos, onde se respira ao ar livre e se desfruta
a calma propícia à quietude, pelo encontro com gentes
da terra, pela descoberta de antigos ofícios e produtos locais,
pelo prazer de viver numa casa de aldeia construída segundo
os métodos tradicionais, pelo retorno às origens...
- embora seja uma das fortes dominantes da procura turística
em meio rural, esta busca de valores imateriais não se contrapõe
à procura de lazeres e actividades em plena natureza.
b) os homens
- a uma oferta
diversificada de produtos, de actividades e serviços turísticos
no espaço rural, ligada à participação
activa, possível e mesmo desejável dos vários
componentes da comunidade rural - agricultores, artesãos,
comerciantes, autarcas, associações, particulares
- corresponde uma procura turística compósita em todas
as suas vertentes - categorias socioprofissionais, origens geográficas,
faixas etárias, motivações de estada.
c) os produtos
- graças
a uma valorização dos recursos locais, os produtos
turísticos podem responder às expectativas múltiplas
dos consumidores...
- sabendo-se que se devem sempre criar equilíbrios entre
a satisfação da procura turística e a adaptação
da produção turística às especificidades
culturais locais.
II - DADOS NUMÉRICOS RELATIVOS À PROCURA TURÍSTICA
NO ESPAÇO RURAL: O CASO FRANCÊS
a) dados de
um inquérito geral sobre a "A procura turística
no espaço rural" (Direcção do Turismo
- Secretaria de Estado do Turismo - 1999)
- o espaço
rural francês:
- representa 80% do território francês
- recebe 31% da frequência turística global em termos
de pernoitas
- representa 21% do consumo turístico interno;
- em 1997, a clientela francesa efectuou 60 milhões de estadias-pessoas
no espaço rural e cerca de 315 milhões de pernoitas,
e a clientela de não residentes 10,5 milhões de estadias
pessoais e profissionais e 70 milhões de pernoitas;
- a oferta turística do campo é composta por:
- 76715 quartos de hotel
- 55000 camas em aldeamentos de férias
- 237558 lugares de campismo
- 41868 turismos rurais
- 1500 albergues de etapa
- 21466 quartos de hóspedes
(sem considerar o conjunto de residências secundárias,
nem o alojamento dado por parentes ou amigos, cuja importância
é grande em meio rural);
- alguns dados globais:
- o campo é relativamente menos frequentado pelos jovens
de 15-24 anos de idade
- poucas categorias socioprofissionais estão sobre ou sub-representadas
- os habitantes da capital e subúrbios representam 32% das
estadas
- o campo é frequentado por qualquer tipo de agregados sociais
- o Verão é a estação privilegiada,
embora a sazonalidade seja menos marcada no campo
- mais de 60% das estadas são curtas (proximidade do espaço
rural em relação a grandes aglomerados urbanos)
- o automóvel é utilizado em 87,7% das estadas
- cerca de 71% das estadas dos Franceses são reservadas directamente
junto do prestador de serviço turístico; 10% das estadas
dos estrangeiros são reservadas por intermédio de
uma agência de viagens
- 20,4% das pernoitas efectuam-se em alojamentos de cariz comercial
e 77,9% em alojamentos não comerciais
- descanso e passeio são as principais actividades no campo
- despesas por pernoita inferiores à média.
b) dados relativos ao alojamento turístico
- para o "agro-turismo"
(turismo na quinta) - análise elaborada em 1998 pela AFIT
(Secretaria de Estado do Turismo)
"...quatro
grupos principais parecem constituir a clientela de base:
- indivíduos, casais, famílias, quadros intelectuais
sem grandes recursos nem exigências...
- "itinerantes" financeiramente à vontade, cultivados,
amadores de variedade durante as férias e os tempos livres...
- famílias que se destacam pela quádrupla modéstia
da sua origem, do estatuto social, do grau de habilitações
e dos rendimentos...
- grupos constituídos por via das afinidades (família,
profissão, faixa etária, desporto, hobby)
- para a hotelaria
rural (rede de "Logis de France"):
68% da clientela é de origem francesa, 32% de origem estrangeira
(dos quais 27% de Belgas, 20% de Alemães, 11% de Neerlandeses...)
- para o alojamento
em casas particulares:
- turismo rural: trata-se essencialmente de uma clientela familiar,
casais de 25 a 44 anos de idades, com 2 crianças de idade
inferior a 15 anos, 75% de Franceses (os Britânicos são
a principal clientela estrangeira)
50% dos clientes são quadros médios ou superiores
e profissões liberais
72% dos clientes mudam de turismo rural todos os anos.
-em quarto
de hóspedes: trata-se sobretudo de casais sem filhos, com
idades entre 35 e 64 anos, 72% de Franceses (os Belgas são
a principal clientela estrangeira)
26% dos clientes são aposentados.
III - TURISMO EM ESPAÇO RURAL E DESENVOLVIMENTO DURADOURO
"...A vivência
turística é complexa e paradoxal; a uma procura turística
da natureza, da cultura, do património, do tradicional, do
encontro com populações locais, opõem-se comportamentos
turísticos em termos consumistas que por vezes não
respeitam nada nem ninguém...; a uma oferta turística
que privilegia a qualidade do acolhimento, opõe-se o espírito
mercantilista de alguns empresários turísticos...;
concerteza, a verificação aplica-se ao conjunto do
sector económico do turismo, mas os efeitos negativos tornam-se
tanto mais sensíveis quando a oferta e a procura decorrem
de um procedimento socio-cultural - que, aliás, não
é comparável com considerações económicas...
Por outra parte,
os componentes sociológicos das comunidades rurais evoluem,
os quadros de vida transformam-se, as populações locais
renovam-se, as actividades económicas diversificam-se..."
("Alojamento
turístico em espaço rural", relatório
de S. Thibal / Y. Blondé para o Conselho Nacional do Turismo,
Paris, 2001)
E, no entanto,
as identidades locais - que se exprimem tanto nas paisagens, nas
construções, nos hábitos e costumes, nas tradições,
nos saberes fazer agrícolas e artesanais - devem manter-se
fortes, para o benefício conjunto das populações
e dos visitantes.
Aí reside
toda a problemática actual do desenvolvimento duradouro dos
lugares de vida no espaço rural, para a qual contribui a
oferta e procura turística.
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