INTERVENÇÕES

Boas Vindas

Pelas funções para que fui eleito “voluntário à força”, cumpre-me a agradável tarefa de abrir os trabalhos desta III Bienal de Turismo em Espaço Rural.

Mais uma vez somos recebidos nesta acolhedora e encantadora Vila das Velas.

Imediatamente este nome me traz inúmeras conotações.

Desde logo as velas dos navios, que, tantas vezes transportaram os nossos sonhos e as nossas mágoas.

As velas dos moinhos, que produziam a farinha para o nosso pão, quantas vezes amassado com suor e lágrimas.

As velas das Igrejas que simbolizam os nossos votos e as nossas promessas nem sempre acudidas.

As velas com que iluminámos as nossas noites e que também usámos para ver os caminhos de regresso ao lar.

Sinto-me um pouco assim — de regresso ao lar, onde reencontro todos aqueles que formam a nossa pequena família.

(puxar a vela e acender)

Dada a distância e as exigências da vida actual, esta Bienal assume uma importância enorme, desde logo por funcionar como Assembleia onde todos nos reunimos.

É neste contexto que me arrogo o dever e o direito de deixar algumas propostas para que sejam discutidas, visto que elas reflectem as preocupações que me chegam.

Só nós próprios conhecemos as dificuldades que se nos deparam diariamente e a legislação que enquadra o sector é um dos aspectos que poderia ser melhorada em várias vertentes.

1. Em primeiro lugar e, desde logo, os critérios de avaliação dos projectos e das tipologias.

Não se podem aceitar critérios que parecem feitos como “fatos por medida única”. As avaliações deverão ser feitas “inter-pares”, pois só pessoas da mesma área podem avaliar estas propostas.

2. Também, por vezes, e para dar resposta às solicitações que nos são feitas pelos clientes, nos vemo-nos forçados a ajustar áreas de ocupação lúdica à tipologia dos nossos visitantes e frequentadores, nem sempre iguais em todas as unidades e nem sempre iguais de uma época a outra.

Quantas vezes somos, mesmo, obrigados a improvisar.

3. Seria, por nós, vista com muito bons olhos a desburocratização e agilização das candidaturas a processos de incentivos que, pelas complicações, documentação, prazos entre fases, e tempo de apreciação desmotivam frequentemente o candidato-proponente/investidor.

4. Nota-se ainda um desajustamento dos limites de incentivos à realidade financeira que está sempre a ser actualizada, com o tipo de propostas apresentadas para realização pela sua rentabilidade, podendo mesmo vir a ser majorados os incentivos que o justificarem.

5. Em certas unidades, verifica-se que, para total rentabilidade, os limites impostos por lei, como, por exemplo, o número de aposentos disponível cerceiam a capacidade de melhores resultados financeiros.

Com limitação e sem permitir a descaracterização das unidades, desde que devidamente justificada, pensamos que também nesta área seria possível agilizar critérios para benefício de todos e do turismo em particular.

6. Ainda dentro dos critérios de análise existe um ponto que nos parece, no mínimo, abstruso: obrigar este tipo de unidades a aceitar, na ocupação dos seus postos de trabalho, profissionais formados nas escolas hoteleiras. Todos sabemos em que fase de desenvolvimento se encontra as nossas escolas hoteleiras. Até ainda são concedidos subsídios a hotéis convencionais para formação do seu pessoal. As nossas unidades têm características próprias e só nós sabemos ensinar o que desejamos de prestação de serviço aos nossos clientes sem que os funcionários venham já com outros vícios de formação. Aliás, é curioso, que hotéis novos recebam esse tipo de subsídio e venham tentar aliciar os colaboradores por nós formados. A apreciação deverá ser tão somente pelo número de postos de trabalho criados pela unidade, até porque este tipo de turismo tenta valorizar o espaço rural em que se insere.

Até veríamos com muito bons olhos a melhoria de formação destas escolas e que elas criassem uma área específica para turismo em espaço rural que tem, evidentemente, outras necessidades.

Aos nossos Associados relembramos que a nossa diferença está incondicionalmente ligada à nossa cultura e que, sem a preservação desta, não conseguiremos marcar e distinguir a nossa oferta.

Com investimentos na cultura tradicional que valorizam significativamente uma área, é preocupante o aparecimento de estruturas modernas

descaracterizadas no espaço envolvente, que acabam por abastardar todo

projecto, onde as mais valias vão para o oportunista vizinho e o prejuízo para o investidor e ver-se-ia com bons olhos a criação de uma zona tampão envolvente aos projectos de evidente qualidade arquitectónica

Preocupação ambiental.

Valorizar aqueles que mais se preocupam com a qualidade e prevenção da nossa arquitectura, da qualidade da decoração baseada na nossa tradição, proteger o ambiente envolvente protegendo os endemismos e procurando servir apenas produtos biológicos, locais e de alta qualidade.

Trouxe esta vela para ver se ela nos ilumina como iluminou os nossos Maiores.

Porque uma Bienal é, por definição, o espaço próprio de lucidez e debate que pode permitir a todos nós constituirmos uma massa crítica que conduza a que sejamos ouvidos por quem de direito e para que, com a troca de experiências, possamos enriquecer cada um de nós e o colectivo desta Associação.

Para que as Velas transportem os Nossos sonhos e não as nossas mágoas, deixo-vos um Voto de Bons trabalhos e Boa Bienal.

Tenho dito.

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