INTERVENÇÕES

A sustentabilidade do Turismo Rural

Permitam-me que comece por agradecer às entidades organizadoras o amável convite para participar nesta Bienal de Turismo em Espaço Rural, que reúne nesta linda Ilha de S. Jorge, especialistas mundiais, empresários, académicos, e responsáveis pelo sector do turismo na RAA, numa reflexão conjunta e numa partilha de experiências, enriquecedora e fundamental.

Antes de começarmos a falar sobre o tema que nos propomos abordar, gostaríamos de caracterizar, brevemente, a evolução do sector TER na RAA, de acordo com os

indicadores, mais recentes, publicados pelo SRFA.

Quadros

Conclusões

Na Região Autónoma dos Açores, o TER tem crescido significativamente em termos de procura, a qual é caracterizada por:

- Uma forte sazonalidade;

- Uma distribuição muito desigual dos hóspedes entre os vários mercados emissores;

- Taxas de ocupação relativamente baixas.

O crescimento da procura também tem sido acompanhado, na nossa Região, por um crescimento na oferta de alojamento TER. A análise da sua evolução permite-nos realçar as seguintes características:

- Distribuição muito assimétrica entre as várias tipologias, com uma predominância das casas de campo. A razão reside no facto da legislação não obrigar esta tipologia de alojamento a oferecer tantos serviços, comparativamente com o que acontece com outras tipologias, como, por exemplo, o Turismo de Habitação;

- Distribuição também muito assimétrica entre as várias ilhas, com maior concentração nas Ilhas do Grupo Central.

Portanto, os dados revelam que, nos últimos anos, houve um rápido crescimento das unidades de alojamento TER na RAA, fruto de uma crescente procura e do lançamento de um sistema de incentivos, pelo Governo Regional dos Açores.

No entanto, e infelizmente, isso não significa sustentabilidade, que é o tema que nos preocupa nesta nossa exposição.

A sustentabilidade do turismo é um conceito global, que envolve, em simultâneo, três vertentes, nomeadamente: a sustentabilidade ambiental, social e económica. A primeira exige que a actividade turística conduza a uma gestão de todos os recursos, feita de modo a permitir satisfazer as necessidades económicas, sociais e estéticas, mantendo a identidade cultural, os processos ecológicos, a diversidade biológica e os sistemas de suporte da vida”. A segunda exige que o turismo seja um processo promotor da coesão social, ou seja, gerador de empregos e de crescentes níveis de participação das populações no planeamento e desenvolvimento dos destinos turísticos. A terceira, igualmente importante, e que tem sido muitas vezes esquecida, implica que as actividades turísticas sejam rentáveis e economicamente viáveis.

Ora, o TER é uma actividade que respeita os dois primeiros critérios de sustentabilidade, que acabamos de enumerar.

Mais concretamente, o produto TER é um exemplo de um eco-produto, pois é:

- Integrado no meio envolvente rural, assumindo-se como um instrumento de desenvolvimento regional, que exibe muitas externalidades positivas, de entre as quais realçamos a fixação das populações rurais;

- Sustentável nas vertentes, social e ambiental, garantindo uma melhor integração da actividade turística nos ambientes, natural e humano e baixando o desemprego. No entanto, é exactamente a terceira vertente que determina, muitas vezes, a insustentabilidade do TER Assim gostaríamos de elaborar um pouco mais este ponto, antes de nos debruçarmos sobre algumas recomendações de política.

Os desafios à sustentabilidade do TER

Longe vão os tempos em que o turismo massificado, das décadas de 50 e 60, procurava produtos de baixo preço, com base numa oferta estandardizada de baixa qualidade. Os turistas actuais, cada vez mais informados, viajados, e cultos, e, portanto, mais valorizadores da qualidade do serviço e da autenticidade da oferta, comparam os rácios qualidade/preço de destinos e produtos alternativos, antes de efectuarem as suas escolhas.

Os segmentos emergentes da procura turística internacional, incluindo o segmento sénior, originam nichos de mercado, onde se valoriza mais os produtos diferenciados, dirigidos a necessidades individuais específicas, como é o caso do alojamento em unidades TER.

Mas, esses produtos também colocam questões que necessitam ser resolvidas, através de políticas adequadas.

A primeira questão tem a ver com a dimensão dos Investimentos exigidos por uma oferta de qualidade e, única. Como se trata de investimentos elevados e comportando um elevado grau de risco, é necessário obtermos reduções nos custos médios, através, por exemplo, de economias de escala, ligadas à dimensão das unidades, ou de outros tipos de economias, como as de gania, permitindo a partilha de custos de promoção e marketing. Ora, a dificuldade que as unidades TER têm em obterem economias de escala é notória, dada a sua pequena dimensão. Por isso, as unidades TER individuais não conseguem cumprir o critério da sustentabilidade económica. E, no nosso entender, a legislação em vigor não toma esse facto em consideração. Pelo contrário, ela limita, excepto no caso dos apartamentos turísticos, o número de quartos dos meios complementares de alojamento turístico, onde se inclui o TER, exigindo que ele se desenvolva em edifícios já existentes, de pequena dimensão, tornando-os inviáveis, sobretudo com as baixas taxas de ocupação anuais registadas.

Por outro lado, acentuamos a necessidade de sabermos se os nichos de mercado que conseguimos captar têm uma dimensão, suficiente para compensar os já mencionados elevados custos fixos. Neste contexto, as políticas de diferenciação pela qualidade devem ter em atenção os seguintes aspectos:

- Devem pagar os seus custos;

- Devem ter atenção a sensibilidade da procura a variações na qualidade e nos preços;

- Devem atender à estrutura do mercado onde decorrem as reacções dos concorrentes.

Parece-nos que neste momento, em que o destino Açores está numa fase inicial do seu cicio de vida, não é possível diversificar a procura em segmentos com dimensão suficiente. Por isso, é necessário, a nosso ver, crescermos mais, antes de podermos especializar a oferta com maior sucesso.

O crescimento das unidades de alojamento em hotelaria tradicional, recentemente verificado na nossa Região, não constitui uma ameaça ao desenvolvimento do TER. Antes, pelo contrário, deve ser considerado como uma oportunidade para este nicho de mercado, dadas as suas externalidades positivas, que devem ser reforçadas, através de parcerias eficazes. Perante estas considerações, existe a necessidade da Região dos Açores investir mais em promoção institucional, de modo a captar mais turistas, incluindo os que se dirigem às nossas unidades TER.

O sucesso do TER passa, como referimos, por uma diferenciação capaz de criar valor. Ora, este é criado não só pelo produto final vendido, mas durante todas as fases do processo produtivo, ao longo da cadeia de valor.

O conceito de cadeia de valor, aplicado à actividade produtiva empresarial, que foi desenvolvido por Michael Porter, assenta na ideia que todo o processo produtivo incluí um conjunto de actividades criadoras desde a produção, passando pela logística, até ao Marketing dos serviços turísticos, o facto de serem serviços de experiência, aumenta a cadeia de valor da produção turística. Ou seja, os produtos turísticos são utilizados para produzirem as experiências de consumo turístico. Essas experiências acrescentam mais unia fase à cadeia de valor.

Cada fase adiciona valor ao produto, ou melhor, adiciona benefícios para o consumidor, e lucros para o produtor, ao mesmo tempo que implica custos. A soma dos valores adicionados em cada fase, do processo produtivo, chamados de valores acrescentados, quando podem ser medidos pelos preços de mercado, dá o valor económico total criado pela produção.

Portanto, o sucesso das estratégias competitivas das empresas baseia-se quer na obtenção do maior valor acrescentado na cadeia de valor actual, quer na ampliação da cadeia de valor, de modo a formar clusters de actividade turística, integrando os vários nichos de mercado.

Para aumentarmos a cadeia de valor no TER, é necessário juntarmos ao produto tangível básico, que é a oferta de um quarto, elementos de diferenciação, tangíveis e intangíveis, tais como: a localização e os serviços, incluindo os de animação em espaço rural, e, por

outro lado, a amabilidade do pessoal, a qualidade do serviço, a atenção personalizada, o ambiente, bem como a imagem do produto e da empresa. Destacamos o papel da animação, por gerar satisfação e receitas.

No caso do TER, sujeito a uma forte sazonalidade da procura, há, ainda, que complementar as fontes de receita na época baixa, com outras actividades e serviços, também portadores de valor acrescentado.

Por isso, gostaríamos de chamar a atenção para o facto da Legislação em vigor não favorecer a sustentabilidade económica da actividade neste sector, ao impedir que as unidades de alojamento TER vendam outros serviços, complementares, considerados incompatíveis com a filosofia que preside a este tipo de negócio.

Estudo TER nos Açores

Alguns destes problemas foram detectados através de um estudo sobre o TER na RAA, encomendado pela Associação de Turismo em Espaço Rural “Casas dos Açores”, desenvolvido no âmbito do Programa Interreg III B, e que visa criar um Clube Biotourist, no espaço da Macaronésia, no qual se inserem empresas e actividades de turismo em espaço rural, apoiadas em valores tradicionais e, dotadas de uma oferta serviços personalizados por pessoal qualificado, de uma imagem comum de qualidade, defesa do ambiente e participação social.

Gostaríamos, assim, de apresentar, apenas um pequeno número de importantes conclusões desse estudo, que permitem ilustrar os aspectos, que nos preocupam, ou seja, da sustentabilidade económica da actividade de TER.

O primeiro passo para a concretização deste ambicioso projecto já está concluído e consistiu na implementação de um inquérito à oferta TER na Região Autónoma dos Açores.

Não iremos, aqui, descrever de forma exaustiva as conclusões desse inquérito, mas, apenas as que se referem às políticas de comercialização e promoção adoptadas pelos empresários de unidades TER na nossa Região.

Conclusões:

Para terminarmos, chamamos a atenção para a grande lacuna existente na oferta de serviços complementares ao serviço de alojamento (venda do quarto), que poderiam contribuir para aumentar as receitas da operação, tomando as unidades mais viáveis e sustentáveis sob o ponto de vista económico.

Aliás, esta estratégia é seguida por um crescente número de unidades TER no mundo, que incluem a oferta de serviços tão variados, tais como, a realização de festas, de actividades muito variadas, como cursos de cozinha vegetariana, massagens de medicina alternativa, ou cursos de yoga.

Recomendações Finais

Para concluirmos, constatamos uma necessidade premente de observar, estudar e informar sobre o sector do turismo na Região Autónoma dos Açores, incluindo o TER, quer na óptica da procura, quer da oferta.

No lado da procura

Necessitamos de conhecer melhor a procura em duas vertentes:

- A procura actual, ou seja, os turistas que nos visitam, estudando as suas preferências, as suas motivações, as suas percepções e a sua satisfação.

- A procura latente, dos turistas que ainda não nos visitam, mas que são turistas potenciais.

No lado da oferta

- Temos de estudar a oferta de novos produtos, e como melhorar a oferta existente;

- Temos de conhecer as expectativas dos nossos empresários e o seu índice de confiança;

- Temos de informar todos os parceiros envolvidos sobre os principais indicadores da actividade turística na Região;

- Temos de conhecer e avaliar com rigor científico os impactes do turismo na economia regional.

Todas essas tarefas integrarão as principais atribuições de um organismo fundamental, consagrado no programa do Governo, o futuro Observatório Regional de Turismo, que funcionará em associação com a Universidade dos Açores. Mas, ele só será um instrumento eficaz se contar a colaboração de todos vós, que na nossa Região estão directa, ou indirectamente, envolvidos nesta actividade. Por isso terminamos, confiantes que essa iniciativa seja aceite e participada. Isto para (o vosso bem, que é afinal) o bem do turismo nos Açores.

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